Mimesis
É um termo originado na filosofia grega antiga que diz respeito à representação da realidade pela arte, tendo sido debatido por diversos filósofos, incluindo Platão e Aristóteles. Para Platão, a arte nunca poderia capturar a essência das coisas, porque a única forma de alcançar o verdadeiro conhecimento seria por meio da razão e da contemplação. Já Aristóteles acreditava que a arte era essencial para a compreensão do mundo. Ele argumentava que a mimesis nos ajudava a aprender a empatia, e que desempenhava um papel importante no desenvolvimento humano. A mimese existe também na biologia evolutiva, e se refere à semelhança – visual ou comportamental – de um organismo com outro, com o objetivo de garantir a sobrevivência, demonstrando como as espécies podem se adaptar e evoluir em seus ambientes e frente aos desafios que enfrentam.
No contexto da maternidade solo, a mimesis pode ser relacionada à invisibilidade que essas mães sofrem na sociedade, sendo frequentemente excluídas de narrativas e políticas convencionais, levando à falta de apoio e recursos para elas. Além disso, mães solo enfrentam estigmatização, discriminação e exclusão em seus meios sociais. O cuidado com essas mulheres, para que elas tenham condições emocionais, físicas e financeiras de cuidarem de seus filhos, não é priorizado, o que resulta no não reconhecimento das vivências experimentadas por essas mães, negando-lhes o direito à própria existência para qualquer papel que não seja o da maternidade. Mulheres que são mães solo precisam lidar com situações extremas de cansaço, preocupação com finanças, privação do estado de lazer e, ainda, com preconceitos e julgamentos das pessoas – incluindo as próximas –, que atribuem a elas toda a responsabilidade do cuidado com as crianças. No Brasil, a pandemia de Covid-19 agravou questões sociais, mentais e financeiras para essas mulheres, além de ter exacerbado as desigualdades existentes, principalmente para mães solo de famílias de baixa renda. A questão da maternidade solo é sistêmica e social, é um problema de todos nós. Enquanto não entendermos nosso papel social na questão da sobrecarga materna, não haverá possibilidade de olharmos com verdade para a maternidade solo.
No projeto mimesis, a artista e fotógrafa Juliana Caribé aborda a questão da invisibilização das mães solo por meio da falta de distinção entre a figura e o fundo, representando imageticamente as perdas da identidade e do lugar social que a essas mulheres são impostas. Além disso, retrata a dificuldade e o tamanho da violência que essas mulheres sofrem com frases que às vezes são ditas diretamente, outras vezes de forma implícita, e que as apaga da existência enquanto mulheres. Partindo da própria experiência com a maternidade solo, a artista desenvolveu a série de 10 fotos com autorretratos, e bordou nelas frases que ela própria escuta, mas que também fazem parte da vivência de mais 25 mulheres mães solo que foram consultadas, em uma pesquisa, sobre o que elas ouvem que as faz sentir mais invisíveis em seus contextos sociais e individuais.
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