Caleidoscorpos é um projeto que une fotografia e pintura corporal numa investigação do corpo feminino como território de experiência, escuta e liberdade. Mais do que um ensaio fotográfico, é um encontro no qual imagem, palavra, gesto e tempo constroem, juntos, uma narrativa singular. 
Cada ensaio acontece em um espaço preparado para acolher. O fundo, as tintas, os pincéis e os materiais já estão dispostos quando a pessoa chega. O processo se inicia com uma conversa sem roteiro prévio, atravessando camadas da vida cotidiana: expectativas, família, maternidades, afetos, cansaços, desejos.  
Antes da pintura, são retiradas cartas de dois oráculos. Cada carta oferece uma palavra, que funcionam como chaves simbólicas daquele encontro. Essas palavras não determinam a pintura, mas acompanham o processo como um fio invisível. 
A pintura corporal é realizada sem espelho. A pessoa não se vê enquanto é pintada, ela sente. Confia. Vive o próprio corpo antes de reconhecê-lo como imagem. Apenas quando a pintura está pronta acontece o primeiro encontro visual com a própria figura transformada. A reação costuma ser de surpresa profunda, não apenas estética, mas de si, muitas vezes atravessada por emoção e silêncio. 
A fotografia surge como desdobramento de uma vivência e não como um fim em si mesma. Não há poses nem imagens pré-concebidas. O que interessa é o que nasce do encontro entre pintura e presença. Cada fotografia carrega um tempo invisível, feito de confiança e entrega. O processo segue com pausas e um retorno gradual ao cotidiano. 
Cada pessoa leva a tela que serviu de base para as tintas, marcada pelo desenho espontâneo criado ao longo do encontro. Esses vestígios reforçam a ideia de que a experiência não se encerra na fotografia, mas se desdobra no corpo e na memória. 
Caleidoscorpos já acolheu mulheres, homens e crianças, embora seja majoritariamente realizado com mulheres. O nome, “Caleidoscorpos”, faz referência tanto à multiplicidade das cores quanto à pluralidade de histórias que os corpos carregam, e que se traduzem em palavras ditas, silêncios compartilhados, emoções atravessadas. 
A experiência é frequentemente descrita, por quem a vive, como libertadora, reforçando o impacto subjetivo do projeto. Há, no processo, a força da liberdade de habitar o próprio corpo como espaçolegítimo de existência, memória e expressão. Há a liberdade que pode ser experimentada quando o olhar deixa de controlar e passa a acolher. 
As fotografias não se apresentam apenas como retratos, mas como fragmentos de um processo invisível ao espectador, mostrando uma das faces de um processo íntimo e transformador. Não há um corpo ideal, há corpos reais, diversos, atravessados por suas próprias narrativas. Cada imagem carrega em si uma experiência intensa e compartilhada. O que sustenta a imagem é o encontro que torna possível, ao corpo, finalmente, estar. 
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